Mulheres Que Correm Com os Lobos - Resenha crítica - Clarissa Pinkola Estés
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Mulheres Que Correm Com os Lobos - resenha crítica

Mulheres Que Correm Com os Lobos Resenha crítica Inicie seu teste gratuito
Psicologia

Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 9788532504449

Editora: Rocco

Resenha crítica

Você já sentiu que uma parte sua foi ficando para trás? Não é depressão. Não é cansaço. É outra coisa: a sensação de que existe em você algo vivo, antigo e forte — e que esse algo anda em silêncio há tempo demais.

Clarissa Pinkola Estés passou mais de vinte anos ouvindo mulheres no consultório e colhendo histórias de sua família húngara e mexicana. Ela chegou a uma conclusão simples. A alma feminina funciona como um lobo. Tem faro apurado, gosta de brincar, protege o bando e sabe a hora de descansar. E, como o lobo, foi caçada. Não com armas, mas com regras, vergonha e pressa.

O nome que ela dá a essa força é Mulher Selvagem. Selvagem aqui não quer dizer sem controle. Quer dizer natural, íntegra, no próprio ritmo. É a mulher que sabe o que sente antes de justificar o que sente. Que reconhece um perigo sem precisar de prova. Que cria sem pedir licença.

O caminho de volta, segundo a autora, passa pelas histórias antigas. Contos de fada, mitos, lendas do Ártico e do deserto. Estés os trata como mapas. Cada um mostra um trecho do terreno: onde estão as armadilhas, onde a água é limpa, onde a alma se esconde quando é ferida. Neste microbook você vai percorrer esses mapas — do resgate dos ossos perdidos até o uivo final, quando a vida verdadeira começa.

Cantar sobre os ossos e ser reconhecida por inteiro

No deserto entre o México e o sudoeste americano, contam a história de La Loba, uma velha que junta ossos. Ela recolhe o esqueleto de lobos mortos, monta a criatura no chão da caverna e canta sobre ela até a carne voltar. O animal se ergue e corre para o horizonte. Estés usa essa figura para descrever o trabalho psíquico mais básico de toda mulher: recolher os pedaços de si que morreram pelo caminho e devolver sopro a eles com a própria voz.

Os ossos são concretos. É o desenho que você abandonou aos dezessete anos. É a opinião que você parou de dar em reuniões de família. É o corpo que deixou de dançar. Nada disso desaparece — só vira osso, seco, à espera de alguém que cante.

O mesmo princípio vale no amor. Estés recorre ao conto africano de Manawee, o pretendente que precisa adivinhar os nomes de duas irmãs gêmeas para casar com uma delas. Ele não consegue sozinho: manda seu cão, que descobre os nomes mas os perde três vezes no caminho, distraído por comida jogada no chão. As gêmeas representam a dupla natureza de toda mulher — a face sociável e a face profunda, mágica, indomada. Um parceiro de verdade é aquele que insiste até acertar os dois nomes, em vez de se contentar com a metade apresentável. E o cão distraído é o aviso: apetites pequenos fazem a gente esquecer o que importa saber sobre quem se ama.

O predador interno e a boneca no bolso

Existe uma força dentro da psique que trabalha contra o crescimento. Estés a chama de predador natural, e a história que a revela é Barba Azul. O homem rico e estranho leva a noiva jovem para o castelo, entrega a ela um molho de chaves e proíbe uma única porta. Ela abre. Encontra os corpos das esposas anteriores. A chave cai no sangue e, por mais que ela esfregue, não para de sangrar.

Essa chave é o centro do conto. Ela guarda a verdade que não se apaga. Depois que uma mulher vê o que está sendo morto dentro dela — projetos, desejos, vitalidade —, não existe mais o retorno à ignorância confortável. Estés insiste que a ingenuidade não é inocência bonita: é treinamento. Meninas educadas para serem boazinhas, para não desconfiar, para não fazer pergunta constrangedora, chegam à vida adulta sem o faro que as protegeria. Curiosidade, nesse conto, não é pecado. É o que salva.

O predador não é só o marido ruim ou o chefe abusivo. É também a voz interna que ridiculariza cada ideia sua antes que ela nasça. A que diz "quem é você para tentar isso". Reconhecê-la é metade do trabalho. A outra metade é desmontá-la, pergunta por pergunta.

Se Barba Azul mostra a ferida, Vasalisa mostra a cura. A menina russa perde a mãe cedo, e a mãe lhe deixa uma bonequinha, com uma instrução: alimente-a e escute o que ela disser. Vasalisa guarda a boneca no bolso do avental. Quando a madrasta a manda buscar fogo na casa de Baba Yaga, a bruxa que vive na floresta sobre pés de galinha, é a boneca que indica o caminho e diz quando dormir, quando seguir, quando calar.

A boneca é a intuição, e Estés é precisa no que a sustenta: ela só funciona alimentada. Escutar, consultar, agradecer. Uma mulher que nunca pergunta a si mesma o que sente perde o acesso à própria voz interna — não porque ela suma, mas porque emudece por falta de uso.

O ponto mais duro do conto é o que precisa morrer primeiro. A mãe boa demais — aquela parte da psique que protege de tudo, que evita todo desconforto — tem de acabar. Sem isso, não há iniciação. E as tarefas que Baba Yaga impõe são exatamente o treino que faltava: separar grãos misturados, lavar, cozinhar, aguentar a escuridão sem fugir. Aprender a distinguir o que serve do que não serve, com paciência e sem atalho. Baba Yaga não é gentil. É a face crua da natureza, que dá vida e tira vida sem pedir desculpa. Vasalisa a encara, responde com verdade e sai de lá com fogo na mão.

O que esse par de histórias entrega ao ouvinte é uma competência prática: perceber a intenção real das pessoas. Não pela análise fria, mas pelo sinal do corpo — o aperto no estômago quando alguém promete demais, a inquietação diante de um convite bom demais. Quem treina esse sinal deixa de ser presa fácil.

A Mulher Esqueleto e o custo real do amor

Os inuítes contam a história de uma moça jogada ao mar pelo pai, que virou esqueleto no fundo gelado. Um pescador ingênuo lança a linha, sente um peso enorme e acha que pegou o peixe da vida. O que vem à tona é ela, presa no anzol. Ele foge apavorado, correndo pelo gelo, e a ossada vem arrastada atrás dele, enroscada na linha. Dentro do iglu, à luz fraca, ele finalmente olha o que trouxe — e começa a desembaraçar os ossos com cuidado. Ela dorme ao lado dele. Durante a noite, ele chora dormindo. A Mulher Esqueleto se aproxima e bebe aquela lágrima, saciando uma sede de mil anos. Depois tira o coração dele do peito, bate nele como num tambor, canta, e assim recupera a própria carne.

Estés lê essa história como a anatomia de qualquer relação séria. Todo amor começa com uma pescaria feliz. E toda relação, sem exceção, um dia puxa à tona o esqueleto — o fim da ilusão, a decepção, o outro sem maquiagem. O que a maioria faz nesse momento é o que o caçador fez primeiro: correr.

O que ela chama de natureza Vida-Morte-Vida é o eixo do capítulo. Nada vivo cresce em linha reta. Fases morrem para que outras nasçam: morre a paixão dos primeiros meses, morre a imagem que um tinha do outro, morre um jeito de conviver que não cabe mais. Quem espera que o amor seja só crescimento interpreta cada morte dessas como fracasso, e troca de pessoa em vez de atravessar o ciclo. A tese é dura e libertadora: relações não terminam porque a morte chega. Terminam porque ninguém fica na sala quando ela chega.

Desemaranhar os ossos é a imagem do trabalho concreto. Não é conversa romântica. É separar o que é seu do que é do outro, é entender de onde vem aquela reação exagerada, é desfazer nó por nó a história antiga que cada um trouxe. Dá trabalho, e leva tempo — o caçador passa a noite inteira nisso.

A lágrima é o segundo movimento, e talvez o mais raro. Ele chora dormindo, sem se controlar, sem plateia. Só quando um dos dois se permite ser visto sem defesa é que o vínculo ganha alimento de verdade. Estés observa que muita gente oferece ao parceiro tudo, menos isso: a vulnerabilidade real. Oferece presente, esforço, sexo, paciência. Mas não a lágrima.

E o coração-tambor fecha o argumento. Entregar o coração para servir de tambor significa emprestar seu ritmo vital ao que está morto entre vocês, até que a vida volte. É o oposto da barganha comum, aquele cálculo constante sobre quem deu mais. É entrega sem garantia. A recompensa não vem antes — vem depois, quando a Mulher Esqueleto se levanta com carne, e o que era medo vira intimidade.

Para quem ouve, a aplicação é direta. Na próxima vez que uma relação sua atravessar a fase feia, pergunte-se se está fugindo pelo gelo ou sentando para desembaraçar. E repare em quantas lágrimas suas o outro nunca viu.

Exílio, matilha e um corpo que não pede desculpa

Toda mulher que cresceu sendo a estranha da família conhece o Patinho Feio por dentro. Estés lê o conto como retrato do exílio: nascer num lugar cujas regras esmagam sua natureza. O inverno do patinho é longo, e a tentação é mutilar os talentos para agradar os patos e as galinhas. Ela avisa também sobre o atalho perigoso — juntar-se a qualquer companhia ruim só para aliviar a dor de não pertencer. A tarefa do exílio é outra: resistir, continuar andando e não parar de procurar até achar quem fala sua língua. Os cisnes existem.

E há um exílio que acontece dentro de casa, diante do espelho. Estés reúne mitos de deusas fartas e imperfeitas, como La Mariposa, a deusa borboleta do México — uma mulher velha, enorme, que dança e com o quadril sacode o mundo inteiro. Lembra também das dançarinas de quadris largos que viu em Puebla, corpos que pareciam a própria terra fértil em movimento. O corpo, nessa leitura, é sensor e memória da alma, não vitrine. Julgá-lo o dia inteiro é gastar em vergonha a energia que serviria para viver.

Armadilhas douradas e o caminho de volta para casa

Nos Sapatinhos Vermelhos, uma menina pobre costura à mão sapatos vermelhos toscos e os ama. Uma velha rica a leva numa carruagem dourada e queima os sapatos. A partir daí a menina vive presa a outros sapatos vermelhos, os comprados, que a fazem dançar sem parar até a exaustão doentia. Estés vê aí a troca fatal: abrir mão de uma vida pobre e apaixonada por uma respeitável e vazia. A alma faminta não fica quieta — ela busca qualquer estímulo que preencha o buraco, e é assim que nascem os excessos e os vícios.

O antídoto está em Pele de Foca, Pele de Alma. Um homem rouba a pele de uma mulher-foca e a mantém em terra até ela secar por dentro. Ela só se recupera quando recupera a pele e volta ao mar, sozinha, por um tempo. É a lei de alternância que Estés defende: a mulher precisa de retornos periódicos à solidão, ou resseca. Sem isso, ela perde o gosto pelo próprio trabalho e pelas próprias pessoas — e depois se culpa por isso.

O mesmo vale para a criatividade, que ela descreve como um rio embaixo do rio. A corrente sempre existe, mas pode ser contaminada: pela inveja, pelo perfeccionismo, pelas desculpas, pelas fantasias que anestesiam em vez de produzir. Quando o rio apodrece, ouvem-se os gritos de La Llorona, a mulher que chora pelos filhos perdidos — na leitura da autora, as obras que morreram antes de nascer. Limpar essa água exige prática diária e defesa feroz do próprio tempo.

Riso, raiva e o orgulho das cicatrizes

Na mitologia grega, Deméter está paralisada de luto quando aparece Baubo, a deusa sem cabeça que fala pelo ventre. Baubo levanta a saia, faz uma dança sem pudor nenhum, e a deusa enlutada ri pela primeira vez. Estés trata esse riso como remédio de verdade: o humor grosso, vindo das entranhas, que dissipa a tristeza e reacende o desejo. Mulheres que contam histórias irreverentes umas para as outras estão alimentando uma parte de si que a formalidade tenta calar.

A raiva pede outro manejo. No conto japonês do Urso da Meia-Lua, uma mulher sobe a montanha gelada muitas vezes, deixando comida para o urso, até conseguir se aproximar e pegar um único pelo dele. A lição não está no pelo, está na paciência — instinto ferido se acalma com aproximação lenta, não com explosão. A partir daí a raiva vira conselheira: mostra onde está a fronteira que ninguém deve cruzar. Depois vêm as quatro etapas de perdão que a autora descreve: parar de reagir, abrir mão de punir, soltar a lembrança e, só no fim, cancelar a dívida.

Resta a vergonha. Estés propõe costurar um manto feito das próprias marcas — e erguer pequenos memoriais, os descansos, para cada perda. Contar o segredo a alguém digno quebra o isolamento. Quem faz isso descobre que histórias de sobrevivência não são motivo de esconderijo: são credenciais.

A floresta subterrânea e o cílio do lobo

O conto que Estés trata como mapa maior é o da Donzela Sem Mãos. Um moleiro empobrecido aceita um negócio com o diabo: riqueza em troca do que está atrás do moinho. Ele pensa na macieira. Era a filha. Quando o diabo vem cobrar, ela não pode ser levada, e o preço acaba sendo suas mãos, cortadas pelo próprio pai. A moça parte, vagando pelo mundo sem mãos, come pera num pomar sob a lua, casa com um rei que lhe faz mãos de prata, depois é separada dele por uma trapaça e vai viver sete anos numa floresta escondida. Ali, aos poucos, as mãos de carne crescem de novo. Só então rei e mulher voltam a se encontrar.

A barganha cega é o primeiro golpe, e é o mais comum de todos. Quase toda mulher já fez uma: aceitou um arranjo confortável sem perguntar o preço. Casou pelo alívio financeiro, escolheu a carreira que agradava o pai, ficou onde estava porque sair dava trabalho. O que se perde nunca é o conforto — é a capacidade de agarrar e moldar. Mãos, no conto, são exatamente isso: a habilidade de fazer, escolher, segurar o próprio destino.

As mãos de prata são o detalhe mais afiado da história. Elas funcionam, são bonitas, todo mundo elogia. Mas não sentem. Estés as lê como a solução parcial que muita gente aceita por anos — o trabalho que dá conta das contas, o casamento que funciona no papel, a vida que responde bem quando alguém pergunta como vão as coisas. Uma prótese boa engana por muito tempo, porque não dói. E é justamente por não doer que ninguém a troca.

A floresta subterrânea é o que vem depois de a prótese não bastar mais. Ali não há plateia, não há progresso visível, não há prazo. A mulher aprende a suportar o vazio, a comer o que a natureza oferece, a confiar numa nutrição escura que não sabe nomear. Estés é honesta quanto à duração: são sete anos no conto, e ela não trata isso como exagero literário. Recuperações reais são lentas, e a pressa de sair do exílio costuma jogar a pessoa de volta na barganha que a mutilou.

O milagre do conto é discreto. As mãos crescem sozinhas, no escuro, sem cerimônia. Ninguém devolve nada a ela — o corpo refaz o que perdeu porque foi alimentado pelo tempo certo de silêncio. E o reencontro com o rei só acontece depois disso, o que inverte a ordem que costumamos acreditar: não é o amor que restaura a mulher; é a mulher restaurada que pode, enfim, encontrar alguém de igual para igual.

Estés acrescenta que esse chamado nunca para. A psique profunda acompanha os passos de cada uma como um lobo que segue à distância, sem atacar, esperando abertura. Ela fala pelos sonhos, que corrigem à noite o que o dia machucou, e por um canto antigo que, uma vez ouvido, estraga para sempre o gosto de viver só pela razão e pelas convenções. Não se trata de visitar o lado instintivo nas férias. Trata-se de deixá-lo participar do jantar, do trabalho, das decisões banais.

O último conto do livro fecha o percurso. Quem salva o lobo da morte recebe dele um cílio — e, olhando através dele, passa a enxergar as pessoas como realmente são, sem o disfarce das boas maneiras. Esse olhar tem uma pergunta única e cortante, que Estés recomenda antes de aceitar qualquer proposta, emprego, convite ou promessa: onde está a alma aqui? Se não houver resposta, não há por que entrar.

Notas finais

Voltar à Mulher Selvagem não é largar a vida civilizada. É reaver o que a pressa e a boa educação amputaram: faro, desejo, invenção, coragem de dizer não. Você já tem os ossos. Falta cantar sobre eles, com paciência e sem pedir permissão a ninguém. A gaiola continua aberta enquanto você hesita. Recuse a coleira, levante e uive — sua história verdadeira começa aí.

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Quem escreveu o livro?

Estés é uma psicóloga junguiana, escritora e poeta, espe... (Leia mais)

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